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16/08/2017 - 07:00hs
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Histórias de recomeço

Deixando para trás anos de vida confortável em seu país, refugiados sírios enfrentam realidade dura no Brasil. Falta emprego e dinheiro, mas eles agradecem por estarem longe da guerra.



São Paulo – Até o início de 2011, eles estavam bem estabelecidos em Damasco, Homs, Alepo e em outras tantas cidades sírias. Tinham trabalho, casa própria, algum patrimônio, os filhos em boa escola, amigos, uma família que almoçava reunida em datas festivas e religiosas. Mas a guerra transformou essa realidade para os sírios e empurrou milhões deles para uma vivência bem mais dura em outras partes do mundo, inclusive no Brasil.

George Ourfalian/AFP

Refúgio: uma partida para a sobrevivência

A vida de refugiado significou uma mudança radical no cotidiano e no padrão da maioria dos sírios que desembarcou no Brasil. Para grande parte dos que vieram, implicou morar nas periferias das cidades, abrir mão da profissão, passar por dificuldades financeiras e depender de ajuda para morar e comer. Eles sentem e sofrem a diferença, mas se mostram agradecidos por estarem vivos e certos de que a escolha pelo refúgio garantiu a sua sobrevivência.

São pessoas como Abdulbaset Jarour, que mora de favor na capital paulista, e a refugiada Razan Suliman, que está fazendo uma campanha de financiamento coletivo na internet para conseguir um teto sob o qual abrigar a família e para cozinhar quitutes para vender. A síria Tamador Faher Aldeen tinha uma vida confortável em seu país, com o marido trabalhando na área de transporte marítimo, mas no Brasil já passou meses com o aluguel atrasado. O marido arrumou emprego há pouco tempo. “Aqui não temos nada, mas graças a Deus estamos bem”, afirma a mulher.

Diferente dos imigrantes sírios que desembarcaram no Brasil no final do século 19 e encontraram um País com grandes oportunidades, principalmente no comércio, os novos sírios se deparam com uma nação em crise econômica e altas taxas de desemprego. O País, no entanto, se apresentou para muitos deles como o único que abriu as portas. Desde 2013 o Brasil concede vistos humanitários especiais para eles em consulados de países fronteiriços à Síria.

Só no ano passado, 326 sírios receberam refúgio no Brasil. Os especialistas em imigração afirmam que eles chegam com um perfil diferente da maioria dos refugiados. Normalmente vêm da classe média, já tiveram acesso a universidades, experiência profissional, falam duas ou mais línguas. “Eles têm um perfil de qualificação acima da média, profissional e educacional, acima da média dos refugiados e da população brasileira mesmo”, afirma o assistente sênior de informação pública da Agência da ONU para Refugiados (Acnur), Miguel Pachioni.

Stringer/AFP

Guerra expulsou parte da população da Síria

O preço da passagem já é um indicativo de que os sírios que conseguem viajar ao Brasil vêm de uma condição econômica razoável, pois os valores do ticket aéreo são altos. Alguns gastam tudo o que têm para comprar a passagem, outros chegam a desembarcar com algum capital. “Inicialmente não estão extremamente vulneráveis, mas nada impede que com o tempo cheguem a uma situação de vulnerabilidade”, afirma Pachioni.

As histórias ouvidas pela ANBA apontam que o dinheiro trazido não é suficiente para muito tempo. A voluntária da organização não-governamental Compassiva, Mayra do Prado, que convive com refugiados sírios, afirma que eles chegam economizando até na refeição. A socióloga e antropóloga Marília Calegari Quinaglia, que está fazendo doutorado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) sobre os refugiados sírios, conta que muitos venderam casa, carro e empresas para sair do país. “Chegaram já sem a mesma condição financeira”, diz.

Os sírios não gostam de depender de ajudas ou de programas de seguridade social. “Fazem muito esforço para quem possam se autossustentar o mais rápido possível”, afirma Pachioni, do Acnur. Marília conta que eles aceitam ajuda, mas dizem que preferem trabalhar e sustentar a família. Ao mesmo tempo, porém, é raro alguém deles encontrar emprego em sua área profissional. Mayra conta que a maioria dos refugiados sírios com os quais convive tem formação universitária, até pós-graduação e MBA, e são de áreas como engenharia, farmácia, ensino. Apesar disso, as portas de emprego se fecham para eles.

Mayra acredita que três fatores os excluem do mercado de trabalho: a falta de fluência no português, a dificuldade de revalidar diplomas e ter os certificados de cada profissão, além do preconceito. Pachini afirma que as empresas brasileiras não estão preparadas para recebê-los e que nesta rejeição pesam o idioma, a falta de informação das companhias e uma certa xenofobia, preconceito em função da religião e dos hábitos diferentes. Para revalidar diplomas é preciso fazer uma prova em português, algo difícil para quem recém conheceu a língua.

Divulgação

Cozinhar é alternativa para alguns refugiados

O trabalho que os refugiados normalmente conseguem é em restaurantes de árabes ou lojas de eletrônicos de sírios e libaneses que chegaram ao Brasil em ondas imigratórias mais antigas, relata Marília. O caminho para muitos deles é empreender, principalmente na gastronomia e no comércio de eletrônicos ou roupas. “São muito empreendedores”, afirma Pachioni, que enxerga nisso uma contribuição importante para o Brasil. “Se olharmos o Brasil, com estagnação econômica, o potencial que eles têm de contribuir, no caráter de inovação, é impressionante”, afirma o representante do Acnur.

Procurar o caminho do sustento tem sido um dos maiores desafios para essa nova população síria no Brasil, que desembarcou do avião sem saber onde dormiria naquela noite. Alguns conseguiram ajuda de árabes que estavam pelos saguões dos aeroportos, outros foram orientados a procurar organismos de assistência, outros buscaram mesquitas. Quem podia, foi para hotéis baratos. Marília conta que alguns ficaram horas e até dias no aeroporto. “Mas eles têm um grupo muito forte, a comunidade árabe. A comunidade árabe em São Paulo ajudou muito”, afirma Marília, lembrando que hoje os próprios refugiados ajudam quem chega.

As organizações não-governamentais também desempenham um papel importante na assistência a refugiados sírios e de outras origens no Brasil. Algumas conseguem recebê-los já na chegada ao País, outras promovem ações como cursos de português e feiras para vendas de produtos feitos por eles. A ONG Compassiva, para a qual Mayra trabalha, por exemplo, dá aulas de português, cursos de empreendedorismo, ajuda na tradução de currículos e inserção no mercado de trabalho, promove eventos voltados para os refugiados, faz doações de produtos básicos, dá assistência social e assistência jurídica para revalidação de diplomas. A ONG atende muitos refugiados sírios.

Em família

Os novos sírios trazem junto sua religião - para a maioria, o islamismo - e também o seu jeito predominante de viver: em família. Poucos vêm sozinhos. Alguns homens chegam antes, com um parente, conseguem um lugar para ficar e então trazem a mulher e os filhos. “Eles vêm em família e continuam construindo suas famílias aqui”, conta Pachioni. De acordo com o assistente do Acnur, eles têm orgulho de falar que têm filhos brasileiros.

Na tese de doutorado de Marília Calegari Quinaglia, ela pesquisou a realidade das crianças sírias e dos brasileirinhos, os que nasceram no Brasil. Marília conta que a maioria das crianças estuda em escolas públicas e que estas não têm infraestrutura para lidar com elas. O idioma é uma dificuldade, além de questões culturais, como a maneira de se vestir, com o uso do hijab pelas adolescentes, e o contato físico entre colegas. Mas a pesquisadora relata que nas famílias, quem acaba dominando primeiro o português são as crianças em função da escola.

A antropóloga acredita que a sociedade brasileira tem muito a ganhar com a diversidade cultural trazida pelos refugiados sírios. Ela ressalta a resiliência e a força para recomeçar mostrada pelos sírios. “É algo que toca”, diz Marília. Nesse contexto, o assistente Pachioni frisa a importância de os brasileiros aceitarem o desconhecido como um ser humano e como sujeito de direito, com conhecimento e saberes. De acordo com ele, sem esse elemento de fora, sem essa perspectiva trazida de outros lugares, ficamos estagnados.

Um jovem sírio

Isaura Daniel/ANBA

Jarour: empreendedor na Síria

O jovem Abdulbaset Jarour, de 27 anos de idade, é um dos sírios que tenta refazer sua vida no Brasil. Morando na cidade de São Paulo há três anos e sem um emprego fixo em todo esse tempo, o refugiado vive há um ano e meio de favor na casa de uma senhora brasileira. O refugiado se mostra agradecido a essa mulher e aos que o ajudaram até agora, mas não se cansa de dizer que tudo o que quer é uma oportunidade de trabalho.

Jarour vem de Alepo e nasceu em uma família com negócios em construção. Ele chegou a começar uma faculdade de Administração de Empresas e, apesar da pouca idade, já fez de tudo um pouco no seu país: vendeu eletrônicos, tecidos, alimentos, automóveis, teve lojas e serviu ao Exército. Mas machucado por estilhaços e vendo amigos morrerem, ele percebeu que era hora de ir embora. Jarour passou um tempo no Líbano, conseguiu cobrar algumas pessoas que lhe deviam dinheiro, e depois viajou para o Brasil.

Tentando encontrar um trabalho sem sucesso, Jarour percebeu há cerca de um ano e meio que já estava sem dinheiro. “Eu pensei: o que vou fazer? Eu senti que eu não tinha ninguém”, conta. Mas um amigo fez a ponte com a brasileira que lhe abriu as portas de casa.

O sírio diz que já entregou mais de 150 currículos. Apesar do desânimo, ele diz que não vai desistir. Fez cursos em empreendedorismo, dá palestras – a maioria como voluntário – contando sobre o que é ser um refugiado, fundou uma ONG para refugiados se ajudarem e criou uma banda. Mas nada disso garante seu sustento. Assim que conseguir uma renda, Jarour pretende tirar a mãe e a irmã adolescente da Síria. O pai de Jarour morreu e o restante da família está espalhada por Turquia, Iraque, Alemanha, Canadá e Líbano.

Teto incerto

Arquivo Pessoal

Tamador e o marido: vida refeita no Brasil

Na cidade de Santo André, a síria Tamador Faher Aldeen e o marido vão se virando como conseguem para sustentar os três filhos. Na época da entrevista à ANBA, o marido de Tamador tinha conseguido emprego há apenas um mês e a casa onde moravam estava com alugueis atrasados. A família veio da cidade síria de Lataquia e ficou um tempo no Egito antes de se refugiar no Brasil. Tamador conta que na Síria eles tinham casa, dois carros, o marido tinha trabalho. “A gente deseja viver igual vivia na Síria”, diz ela.

Sem conseguir emprego no comércio, área de sua especialidade, o marido de Tamador procurou serviço em restaurantes. Trabalhou três meses num restaurante, mas o local fechou e ele ficou desempregado por um longo tempo. No Brasil, Tamador tem contado com ajuda. “Os brasileiros ajudaram bastante, as mesquitas também”, relata a síria, que tem o auxílio do filho maior, de dez anos, para falar português.

Uma ajuda para cozinhar

Arquivo Pessoal

Razan e o marido: cozinha árabe

Outra síria, Razan Suliman encontrou na comida árabe uma maneira de garantir algum dinheiro para o sustento da família no Brasil. O marido ficou surdo e com outros problemas de saúde por causa das bombas da guerra. Na Síria, Razan dava aulas para crianças e o marido era funileiro de automóveis, mas os dois perceberam que a vida corria perigo depois que ficaram nas mãos de um grupo terrorista. Foi então que saíram do país.

No Brasil, a refugiada começou vendendo comidas para pessoas próximas e depois abriu uma página na internet para ampliar o serviço. Apesar da saída profissional que encontrou, o casal, que tem um filho pequeno, ainda enfrenta muita dificuldade financeira. Neste momento Razan tem em pé uma campanha de financiamento coletivo para conseguir comprar mantimentos e seguir cozinhando para vender e para pagar o aluguel. A família está num imóvel cedido por uma mesquita e terá que entregá-lo em breve, mas não tem como bancar uma casa. A campanha está no site Vakinha (https://www.vakinha.com.br/vaquinha/ajuda-para-razan).

Haverá volta?

Apesar das dificuldades enfrentadas no Brasil, os refugiados sírios não enxergam a volta para sua terra como uma solução neste momento e nem sabem se retornarão caso a guerra acabe. As Nações Unidas divulgaram que 600 mil sírios retornaram neste ano para suas casas, mas no mesmo período 800 mil saíram. Tamador conta que os filhos, que vieram pequenos para o Brasil, não querem retornar. Um deles nasceu em terras brasileiras. “Não vou voltar, agora é difícil, a casa foi destruída pela guerra, não temos mais nada lá”, conta a síria.

A mesma pergunta sobre a volta fazem aos refugiados os que trabalham na assistência a eles ou no estudo da sua questão migratória. Os desejos encontrados são diversos. Pachioni, no Acnur, conta que há quatro anos sentia que os sírios tinham vontade de regressar, mas que nesse momento isso não ocorre da mesma maneira. “Eles olham o país de origem e não o reconhecem. Isso faz com que se sintam mais confortáveis no Brasil”, afirma, ressaltando que o sentimento é diferente para quem deixou parentes por lá.

Marília afirma que os refugiados sírios sonham com a volta, mas não sabem se vão conseguir, não sabem quanto tempo a guerra vai durar. Ela explica que retornar significaria recomeçar de novo a vida e agora eles já têm amigos e relações no Brasil. Mayra percebe que eles estão felizes no Brasil porque estão longe da guerra, por terem tido a chance de sobreviver. Alguns dizem para ela que o Brasil é sua nova casa, outros que voltam amanhã se a guerra acabar hoje. “Não porque não gostem do Brasil, mas porque a Síria é a terra deles.”

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