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31/08/2008 - 07:00

Desenvolvimento sustentável

O senhor da chuva

Seu Toti é conhecido como metereologista da roça, sempre decifrou os sinais do tempo. Mas hoje as mudanças climáticas o atrapalham e ele lamenta pela agricultura não ter preservado mais a natureza.

Geovana Pagel e Isaura Daniel
Cláudia Abreu/Agência Meios Cláudia Abreu/Agência Meios

81 anos: Toti viu a paisagem mineira mudar

São Paulo - O mineiro Aristóteles Martins de Oliveira, seu Toti, tem 81 anos e é conhecido como uma espécie de 'meteorologista' da roça. "Toda a vez que os vizinhos me enxergavam recolhendo café, corriam pra fazer a mesma coisa porque vinha chuva", conta. Observador dos fenômenos da natureza, da direção dos ventos e das mudanças das fases da lua, seu Toti se acostumou a não errar na previsão. "Quando arma uma chuva longe e o relâmpago sobe no céu é porque a chuva vai chegar logo. Agora, se o relâmpago muda de direção e vai mais de lado, por causa do vento, é porque a chuva vai passar longe daqui", garante.

E na hora de plantar, olho de novo grudado no céu, mais precisamente na lua. "A lua governa a terra e a natureza. O arroz e o feijão eu gosto de plantar na nova. Já o milho, só planto na crescente", afirma. E na hora da colheita, segundo Seu Toti, o ideal é a fase minguante. "Principalmente o feijão e o milho, se colher na nova, estraga logo", garante. Mas as mudanças climáticas, cada vez mais intensas, atrapalharam até o agricultor com o título de senhor do tempo. "Agora a chuva vem de qualquer lado, o sol está mais quente, até o vento mudou", destaca.

Seu Toti nasceu e cresceu na mesma casa, em São Pedro da União, cidade de seis mil habitantes, na região sul do estado de Minas. Quando completou 40 anos, derrubou a casa antiga e construiu outra no mesmo lugar. "Aqui é minha terra e onde estão minhas raízes", destaca. Ao longo de oito décadas, observou as mudanças na paisagem da região. Viu as grandes áreas de matas nativas sendo derrubadas, queimadas e substituídas por pés de café. "A gente queimava e limpava bem o terreno com rastelo. Depois vinha a chuva e lavava o solo fértil. Ninguém fazia plantio direto como hoje. A maioria das pessoas não sabia que estava fazendo tudo errado e acabamos prejudicando a natureza. Agora vamos precisar de anos para recuperar", lamenta.

Felizmente, o agricultor também testemunhou uma mudança da postura dos produtores da região. "A partir dos anos 80 não vi mais nenhuma queimada. As novas gerações estão mais preocupadas em preservar e proteger a natureza. Por isso acredito que nosso planeta ainda pode sim ser salvo", afirma Seu Toti, que tem nove filhos, dez netos, dois bisnetos e disposição para observar ainda muitos ciclos lunares.

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