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15/09/2011 - 14:23hs
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Lavoura estrangeira

O movimento de ida de produtores brasileiros a países sul-americanos para plantar recua há alguns anos. Mas começa o caminho para a África, onde agricultores encontram terra boa e remuneração melhor.



São Paulo – Frademir Saccol é brasileiro e até o final de 2008 levava uma vida tranquila na cidade gaúcha de Guaíba, fazendo projetos de financiamento agrícola na região. Saccol continua trabalhando com agricultura, mas agora, em vez do Rio Grande do Sul, ele vive em Acra, capital de Gana, na África. Dali, parte duas vezes por semana ao interior para cuidar de uma lavoura de arroz. Saccol tem participação num projeto de uma fazenda ganense, que tem outro sócio do Brasil e um local, e integra o time de produtores brasileiros que resolveram fazer agricultura mundo afora, principalmente no continente africano.

Divulgação
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Ganenses trabalham em lavoura brasileira

Um movimento parecido aconteceu no passado, há cerca de quarenta anos, rumo a países da América do Sul, como o Paraguai. Agora, com as oportunidades quase esgotadas e a terra encarecida na vizinhança, a agricultura brasileira começa a dar sua cara na África, em uma e outra iniciativa, mas que promete crescer. “Com cultivares mais resistentes ao estresse hídrico, se abre uma fronteira grande na África [para a agricultura]”, diz o professor de Economia Rural da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Eugênio Stefanelo.

Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal

Saccol e seu filho africano

Por trás do movimento estão produtores brasileiros em busca de vantagens competitivas, como terras mais baratas e mercados que remunerem melhor, além de governos locais sedentos por aprender com a famosa tecnologia brasileira, desenvolver a sua agricultura e garantir a alimentação futura da sua gente. “Lavoura em escala aqui é coisa nova, o governo dá muito apoio”, diz Saccol a respeito da recepção que o projeto brasileiro encontra no país.

Assim como em Gana, também em Moçambique o governo tem demonstrado que faz questão da bandeira verde e amarela nas lavouras de lá. Em visita ao Brasil no começo do ano, o ministro da Agricultura moçambicano, José Pacheco, falou das oportunidades para produtores brasileiros. No ano que vem a Câmara de Comércio, Indústria e Agropecuária Brasil-Moçambique leva uma missão de produtores até o país para conhecer as possibilidades.

De acordo com Fabio Vale, gerente nacional da Câmara, a intenção do governo é dar ao país sustentabilidade produtiva e alimentar, gerar empregos e dominar a tecnologia agrícola. Atualmente só existe cultivo de subsistência no país e as terras são do estado. “O governo dá uma concessão de uso, com um prazo de cinquenta anos, que pode ser prolongado por mais cinquenta”, diz Vale. Para isso, porém, é preciso apresentar e aprovar um projeto junto ao governo. A brasileira Açúcar Guarani planta cana para etanol por lá.

O Grupo Pinesso, do Mato Grosso, também pretende começar a produzir em Moçambique, de acordo com o seu diretor, Gilson Pinesso. A empresa agrícola já planta soja, milho, algodão e feijão no Sudão, outro país africano que tem recebido de braços abertos brasileiros interessados em cultivar suas terras. As lavouras que Gilson utiliza, em território sudanês, por exemplo, são da União e foram oferecidas a custo zero. Ele teve ainda financiamento local, de bancos sudaneses, para compra de máquinas, tratores e sementes.

A África que paga bem

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Gilson: custo de produção é menor

Mas quais são as vantagens de produzir fora do Brasil? Quem foi para a África enumera várias, cada uma condizente com a realidade que encontrada. “A terra é melhor, rica em fósforo, potássio, com 80% de argila. No Brasil temos terras muito ácidas, se gasta muito com calcário”, diz Pinesso, sobre o local onde planta no Sudão, a região do Nilo Azul. “Também estamos mais perto do mercado consumidor, o asiático”, afirma. Segundo ele, o custo de produção é 50% menor, o preço pago é maior e a logística mais barata. A produção deste ano será vendida para a Ásia e o custo de levá-la até lá é US$ 40 menor, por tonelada, do que se fosse enviada desde o Brasil.

Em Gana, o projeto de Saccol, que fica na região Sul do país, encontrou preço melhor para o arroz. Segundo ele, é possível vender o cereal por duas vezes e meia mais do que no Brasil. Além disso, ele enumera outras vantagens. “É verão o ano todo, é propício para plantar e o mercado importa de 700 mil a 800 mil toneladas por ano”, conta o gaúcho. A fazenda de arroz do projeto, que é arrendada, tem 500 hectares cultivados e a área é aumentada em 30 a 50 hectares mensalmente. O objetivo é chegar a cinco mil hectares em quatro anos.

Mas nem tudo é festa na África. “Enfrentamos muita dificuldade, no começo foi difícil. Aqui as terras são de famílias, de tribos, há uma valorização muito grande da terra, muitos preferem deixar a terra parada por medo de perdê-la”, conta Saccol. Gana tem como idioma oficial o inglês, mas são falados 47 dialetos locais, o que é um problema para os estrangeiros. Também há dificuldades de infraestrutura, como falta de água e energia, inclusive na capital.

Desbravadores

Apesar disso, tanto Saccol quanto Pinesso falam com entusiasmo da experiência de produzir lá fora e deixam transparecer que para plantar no exterior é preciso, principalmente, espírito desbravador. “No Brasil a minha vida estava tranquila, meio morna. Eu resolvi vir conhecer, não imaginava ver o que eu vi aqui, é como nós (agricultura brasileira) há 50 anos, é um mundo de oportunidades”, afirma Saccol. O gaúcho recebeu o convite de investidor da fazenda, o sócio brasileiro e majoritário, que já havia começado o projeto. Em Gana, Saccol se casou com uma ganense e tem um filho pequeno.

Gilson Pinesso, que mora no Brasil, mas vai ao Sudão a cada três meses, diz que abraçou o ideia pela possibilidade de diversificar, de plantar em um país diferente, além da oportunidade negócio. Mas vê também o braço social da iniciativa. “Milhares de pessoas estão morrendo de fome na Somália. No Sudão também há fome. Se pudermos contribuir com o desenvolvimento humano, que bom. Não estamos lá para sugar ninguém, terra nós temos de sobra no Brasil. Ganhamos dinheiro, mas também estamos contribuindo com o povo africano. Já pensou se pudermos produzir feijão lá a um custo menor?”, questiona o diretor.

O projeto dos Pinesso no Sudão tem participação de 25% do governo e de 25% de um sócio local, além dos 50% do grupo brasileiro. E as lavouras servem de aprendizado para os sudaneses. O grupo, inclusive, traz técnicos sudaneses para estágio no Brasil. “São 32 brasileiros no projeto e 152 sudaneses”, afirma Gilson. O grupo Pinesso mantém no Brasil o projeto de uma escola agrícola gratuita e pretende levar a iniciativa também para o Sudão. A área de lavoura cultivada no Sudão é de 12 mil hectares de algodão, dois mil hectares de soja, cinco mil hectares de milho, além de um projeto experimental pequeno com feijão.

Em solo vizinho

A mesma vontade de tornar viáveis terras inexploradas tiveram os brasileiros que se aventuraram pela América do Sul no passado. O gaúcho da cidade de Doutor Maurício Cardoso, Ervile Dalcin, foi um dos que, recém casado, resolveu migrar para o Paraguai atrás de oportunidades na década de 90. Na época, ele, o irmão e o cunhado compraram 96 hectares com os 18 hectares vendidos no Brasil. “Havia muita facilidade para comprar terras no Paraguai, não tinha empecilho por parte do governo e a terra era fértil”, diz.

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Trigo brasileiro em Dr. Raul Peña

Na colônia Doutor Raul Peña, onde se instalaram, no distrito de Laranjal, não havia energia elétrica, a água bebida era de poço artesiano e para fazer compras era necessário viajar dez quilômetros. A colônia foi povoada por brasileiros e hoje a realidade local é diferente, com água encanada, luz elétrica, calçamento nas ruas. Dalcin e o irmão – o cunhado saiu do negócio – plantam 350 hectares com soja, trigo, milho e canola, entre terras próprias e arrendadas. A tecnologia usada nas lavouras, como máquinas e tratores, é 100% brasileira.

Presidente de uma cooperativa de produtores, a Cooperativa Raul Peña, Dalcin afirma que hoje não existe mais o movimento de chegada de brasileiros. “Hoje a área agrícola já está muito explorada aqui, há poucas oportunidades agora. Há mercado para a indústria, para transformação dos grãos, mas para isso é preciso investir e a instabilidade política do país dificulta”, afirma, referindo-se principalmente às invasões de terra da qual são alvos as grandes fazendas do país, principalmente as de imigrantes.

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Estrada reparada por produtores no Paraguai

Dalcin afirma que ainda há vantagens de produzir no Paraguai em relação ao Brasil, como a tributação menor, a facilidade de importação de insumos agrícolas e a terra fértil, o que torna a necessidade de investimento na lavoura menor. Mas a grande vantagem, para ele, é já estar instalado e familiarizado com o país. Dalcin tem dois filhos e os dois nasceram no Paraguai. “Quando volto para a minha cidade, me sinto um estranho”, afirma. A produção da Cooperativa Raul Peña é vendida no Paraguai mesmo, para multinacionais.

O retorno

De acordo com o conselheiro da embaixada do Brasil em Assunção, Michel Goggin, o processo de migração de brasileiros para o Paraguai, que ocorreu principalmente direcionada para o campo há 40 anos, se desacelerou. Muitos, inclusive, retornaram ao Brasil motivados pelas novas oportunidades econômicas e de emprego. Mesmo assim, segundo ele, as estimativas indicam que existam de 230 mil a 250 mil brasileiros vivendo no país vizinho, a maioria integrada à vida do país. Já na África, os brasileiros que até agora se aventuraram ainda não pensam em fazer daquelas pátrias uma terra sua. “Pretendo ficar uns oito anos”, diz Saccol.

De acordo com Stefanelo, o processo de migração de brasileiros para plantar em outros países tem se reduzido de maneira geral, principalmente em função das dificuldades, como invasões de terra, encontradas pelos produtores na América do Sul, para onde foi o maior fluxo. O professor afirma que para o Brasil não há vantagens em plantar no exterior, mas que, para os países receptores sim. “Fomenta a produção local, gera renda, desenvolve a região”, diz. Ele lembra que pelo mesmo processo passou o Brasil no passado, como a imigração européia, que acabou contribuindo para o estabelecimento da agricultura em várias regiões do País.

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