17/08/2009 - 07:00
Especiais
Multis mantêm aposta no Brasil
Apesar da crise, o fluxo de investimento estrangeiro direto este ano deve ser o terceiro maior da década. Há negócios em vários setores, de olho no potencial de crescimento do mercado nacional.
“No primeiro semestre provavelmente entraram os níveis mais baixos do ano inteiro, agora os patamares mensais devem ser superiores”, disse o economista Luís Afonso Lima, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet).
De acordo com a pesquisa semanal feita pelo BC junto a analistas de mercado, até o final do ano o ingresso de IED deverá chegar a US$ 25 bilhões. Lima acrescentou que a previsão da Sobeet para 2010, considerada conservadora, é de um fluxo de US$ 30 bilhões. Em 2011, em sua avaliação, o volume poderá retornar ao patamar de 2008, cerca de US$ 45 bilhões.
No primeiro semestre, o comportamento dos investimentos mudou em relação ao ano passado, tanto em termos de países de origem, quanto de setores de destino. A Holanda e a Alemanha passaram os Estados Unidos e a Espanha como os dois principais emissores de IED ao Brasil.
No caso da Holanda, segundo Lima, não quer dizer que os recursos sejam originários realmente de lá. É que o país, além de ser tradicional entreposto de mercadorias, está cada vez mais se tornando um pólo de distribuição de investimentos diretos. “Os holandeses têm acordos para evitar bitributação e de proteção de investimentos com vários outros países. Muitos investidores preferem fazer as transações via Holanda pelas facilidades, benefícios e garantias”, destacou o economista, acrescentando que o país não é um paraíso fiscal.
Um exemplo desse papel da Holanda ocorreu quando da fusão da brasileira AmBev com a belga Interbrew, que resultou na criação da InBev, hoje a maior cervejaria do mundo. As transferências para consolidação do negócio ocorreram em 2004 e, naquele ano, a Holanda também ficou em primeiro lugar na lista de emissores de IED, pois os investimentos passaram por lá, apesar de sua origem de fato ser a Bélgica.
Este ano, a Alemanha subiu de posição no ranking por causa da compra da divisão de caminhão e ônibus da Volkswagen, com sede no Brasil, pela alemã MAN. O negócio de 1,175 bilhão de euros foi anunciado em dezembro de 2008, mas consolidado este ano.
Posteriormente, no início deste mês, a Volkswagen do Brasil revelou que pretende ampliar sua produção de automóveis no país para 1 milhão de unidades anuais até 2012, um aumento de 39% sobre o total fabricado em 2008. Já em 2009, a montadora pretende fechar o ano com 800 mil carros produzidos e, para tanto, suas compras junto aos fornecedores devem chegar a R$ 11 bilhões, 10% a mais do que em 2008.
Indústria
O setor automotivo foi um dos que ajudaram a colocar a indústria como principal destino de IED este ano, ocupando o lugar que até 2008 era do ramo de serviços. Os investimentos industriais somaram US$ 6,63 bilhões entre janeiro e junho, um aumento de 1,6% sobre o mesmo período do ano passado.
Os investimentos estrangeiros na indústria cresceram justamente num momento em que os aportes nacionais no setor caíram. A redução dos investimentos industriais foi o fator que mais afetou a desaceleração do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil no início do ano.
“É sempre assim, [o investidor estrangeiro] pensa numa perspectiva de longo prazo, raciocina que vale mais a pena investir onde há maior potencial de crescimento, e aqui o potencial para os próximos anos é muito grande”, afirmou Lima. No caso da indústria automobilística, por exemplo, não há mais espaço para crescimento nas economias centrais, o esforço das empresas é para aumentar sua participação no mercado deslocando os concorrentes. “Aqui ainda há uma grande parcela não motorizada da população”, acrescentou o economista.
Tal potencial de ampliação do mercado fica claro quando se olha a pesquisa feita pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), divulgada em julho, que coloca o Brasil como quarto país mais atrativo do mundo para os investimentos estrangeiros diretos, atrás apenas da China, Estados Unidos e Índia. De 2008 para 2009, o Brasil subiu uma posição nesse ranking e deixou a Rússia para trás.
Fábrica da MWM: aposta no mercado
Ainda na área automotiva, a MWM International, braço da norte-americana Navistar International, informou que realizou investimentos de US$ 70 milhões este ano e pretende aplicar mais US$ 345 milhões nos próximos cinco em suas fábricas de motores diesel em Santo Amaro, no estado de São Paulo, Canoas, no Rio Grande do Sul, e Córdoba, na Argentina.
Segundo informações da empresa, os investimentos realizados em 2009 foram destinados a programas de desenvolvimento tecnológico, capacitação de funcionários, aumento da linha de produção, aquisição de equipamentos, entre outros. Nos próximos cinco anos, a companhia pretende aplicar no desenvolvimento de motores cada vez menos poluentes para se antecipar a futuras regras sobre emissões.
A MWM produz motores para veículos, máquinas agrícolas, indústrias e embarcações. Além do Brasil, ela tem entre seus principais mercados os Estados Unidos, Índia, China, Coréia do Sul e México. A companhia atende também o Oriente Médio e tem distribuidores no Egito, Líbano e Iêmen, sendo que comercializa em média 1,5 mil unidades anuais na região. A previsão para este ano é de produção de 108 mil motores, sendo 20 mil para exportação.
Nesta mesma seara, a superintendente da Zona Franca de Manaus (Suframa), Flávia Grosso, disse recentemente que a alemã BMW deverá iniciar em dezembro a produção de motocicletas no Pólo Industrial da capital do Amazonas.
No início deste mês, ela anunciou a aprovação de mais 41 projetos industriais no local, que vão movimentar US$ 524,15 milhões em investimentos nacionais e estrangeiros. Os projetos em Manaus são principalmente das indústrias de motocicletas, autopeças, eletroeletrônicos, informática e bens de capital.
Não é só o ramo automobilístico que vem influenciando o crescimento dos investimentos estrangeiros na indústria. Aumentaram também os aportes nos setores químico, de farmacêuticos, de material elétrico, de máquinas e equipamentos, de informática e eletrônicos e de alimentos.
Na semana passada
Mesmo em meio à crise, a imprensa brasileira publica cotidianamente notícias sobre novos investimentos de multinacionais em diferentes áreas. No ramo de alimentos e bebidas, muito forte no país, a Nestlé divulgou na semana passada a intenção de destinar R$ 120 milhões para ampliar sua fábrica de Araraquara, no interior de São Paulo, e acomodar uma unidade de produção de leite longa vida com capacidade para processar 100 milhões de litros por ano.
Também na semana passada, a norte-americana Pepsico anunciou a compra da brasileira Amacoco, que detém 70% do mercado nacional de água de coco A empresa pretende utilizar os canais de distribuição da Pepsi para aumentar ainda mais o consumo interno, além de levar o produto ao mercado externo.
Na hotelaria, o grupo francês Accor anunciou, também na semana passada, que fechou no primeiro semestre 10 novos contratos para construção de hotéis, sendo oito no Brasil e dois em outros países latino-americanos. Os negócios envolvem investimentos de US$ 101 milhões entre aportes próprios e de terceiros.
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